À medida que se inicia o ano do centenário da Guerra Cristera, também conhecida como Cristiada, o Bispo Auxiliar Pedro Mena da Arquidiocese de Yucatán, no México, enfatizou que “a história é uma grande professora”.

Em entrevista à ACI Prensa, Mena observou que, durante o seu ensino básico e secundário, a Guerra Cristera não era mencionada nas aulas de história mexicana.

Mena, de 70 anos, sublinhou que os cristãos, “na perspetiva da nossa fé, devem conhecer a história toda” e “aprender com este acontecimento”, reconhecendo que “será sempre controverso; tem as suas virtudes, os seus defeitos, os seus excessos, mas acredito que devemos aprender com este evento”.

O Padre Javier Olivera Ravas também dará uma conferência sobre “A Resistência Cristera” no dia 6 de fevereiro no Foro Cine Colón em Mérida, Yucatán.

Abordando o tema que acompanha o anúncio da conferência — “Onde Há a Cruz e o Sacrifício, Nasce a Glória” — Mena destacou que, como disse o teólogo Tertuliano, “o sangue dos mártires é a semente” de novos cristãos.

O prelado recordou que, quando o Papa João Paulo II visitou San Juan de los Lagos em 1990, na região conhecida como Altos de Jalisco — onde os Cristeros tinham uma presença muito forte — “uma coisa que me impressionou muito foi que colocaram na praça em frente à catedral [o título] ‘Terra de Mártires'”.

Segundo Mena, o grande número de vocações encontradas nessa região, e noutras áreas com uma forte história Cristera, explica-se pelo facto de os pais levarem frequentemente os seus filhos “a diferentes lugares e dizerem: ‘Foi aqui que viveu tal mártir, foi aqui que o pároco foi mártir, foi aqui que viveu este leigo.’ Por outras palavras, desde pequenos, pensavam naqueles que tinham dado a vida por Cristo”.

Relações Igreja-Estado no México

Nas décadas seguintes à Guerra Cristera — que ocorreu oficialmente de 1926 a 1929 — o governo não revogou as leis opressivas que restringiam a liberdade religiosa e que tinham desencadeado a rebelião, mas simplesmente deixou de as aplicar.

Mena observou como, durante a primeira viagem do Papa João Paulo II ao México em 1979, “houve quem protestasse porque ele usava a sua batina, o que era proibido pelas leis ainda em vigor na altura”.

Em 1992, a Constituição de 1917 — origem de muitas das restrições que mais tarde desencadeariam a Guerra Cristera — foi reformada, e a chamada “Lei Calles” foi substituída pela atual “Lei das Associações Religiosas e do Culto Público”. Desta forma, as relações entre a Igreja e o Estado foram restabelecidas.

No entanto, o prelado reconheceu que a relação entre a Igreja Católica e o Estado pode ocasionalmente ser “um pouco tensa”, embora “haja canais abertos através dos quais podemos dialogar” com as autoridades.

Lições da Guerra Cristera para hoje

Para o bispo auxiliar de Yucatán, uma lição importante que a revolta Cristera no México ensinou, um século depois de ter ocorrido, “é que devemos sempre sentar-nos e discernir como nós, como Igreja, estamos a responder”.

“O importante agora é compreender em profundidade este grande acontecimento, tanto quanto possível, sentar e discerni-lo na perspetiva da palavra de Deus e da nossa missão como Igreja”, disse, apontando para uma preocupação importante: “A evangelização que estamos a realizar na Igreja hoje está a criar cristãos maduros?”

Quanto ao apostolado aos jovens de hoje, imersos nas redes sociais, o prelado enfatizou a importância de “os fazer pensar”, “envolvê-los numa dinâmica onde se sintam desafiados” e “incentivá-los a fazer perguntas”.