Nas cidades mexicanas fronteiriças com os EUA, os números da migração mudaram. Onde antes havia um fluxo constante de pessoas viajando em caravanas, hoje os números diminuíram para um “filete”. No entanto, os abrigos católicos apontam que, longe de desaparecer, a migração tem um novo rosto.
Na cidade de Tapachula, no sul do México, fronteiriça com a Guatemala e conhecida como o principal ponto de entrada para migrantes da América Central e do Sul, o abrigo diocesano Belén (Belém) já teve uma população constante de 500 pessoas.
Esse número começou a diminuir gradualmente, explicou o padre César Augusto Cañaveral Pérez, diretor do centro, em entrevista à ACI Prensa. “Diminuiu muito lentamente, pouco a pouco”, notou o sacerdote, dizendo que a mudança começou a ser notável nos últimos dois anos, embora a alteração mais significativa tenha ocorrido após 20 de janeiro de 2025, quando Donald Trump reassumiu a presidência dos EUA e imediatamente assinou uma série de ordens executivas para apertar as políticas de imigração.
Embora inicialmente Cañaveral pensasse que o abrigo ficaria vazio, ele continua a servir entre 80 e 120 pessoas diariamente. No entanto, ele disse que já não vê o que descreveu como “êxodos massivos”. “Os êxodos migratórios já não são grandes”, observou, mas sim há “um filete de migração”.
Um estudo do Pew Research Center analisou números publicados pela Patrulha de Fronteira dos EUA sobre detenções de migrantes. O relatório afirma que “o total de 2025 foi o mais baixo em qualquer ano fiscal (outubro a setembro) desde 1970”. Em 2025, foram registrados 237.538 encontros entre a Patrulha de Fronteira e migrantes, um número muito abaixo dos mais de 1,5 milhão em 2024 e dos mais de 2 milhões registados em 2022.
Novas Realidades da Migração
Segundo Cañaveral, a presença contínua da população migrante em Tapachula deve-se a três fatores. O primeiro é que “os assentamentos de migrantes cresceram” na cidade. O segundo grupo é o retorno ao que chamou de migração tradicional, ou de trânsito, ou seja, “pessoas que simplesmente chegam ao abrigo, tomam banho, comem e partem”. O terceiro grupo é composto por aqueles que aguardam o processamento de imigração pela Comissão Mexicana de Assistência a Refugiados para permanecer legalmente no México.
Este cenário, alertou, é preocupante, uma vez que “Tapachula não é uma cidade capaz de responder a esta grande questão migratória porque não temos a mesma infraestrutura de Monterrey ou da Cidade do México”.
Repatriados dos Estados Unidos
Na fronteira norte do país com os EUA, também há uma mudança no panorama migratório, especialmente em Tijuana, uma cidade conhecida como uma das principais passagens de fronteira.
Gilberto Martínez Amaya, administrador do Abrigo de Migrantes dos Missionários Scalabrinianos localizado em Tijuana, afirmou que atualmente, o fluxo de pessoas que chegam de sul para norte teve “uma diminuição muito significativa”, embora tenha esclarecido que “isso não significa que não haja migração aqui na fronteira”.
Desde o início de 2026, o abrigo registou “um aumento gradual na sua população residente”, composta principalmente por indivíduos repatriados que viviam nos EUA entre cinco e 30 anos. O governo mexicano relatou que 160.000 pessoas foram repatriadas durante 2025, sendo as cidades de Mexicali e Tijuana os principais pontos de retorno.
Segundo Martínez, o abrigo de migrantes recebe uma média de 15 indivíduos repatriados diariamente, dos quais “alguns ficam connosco três dias, uma semana, e depois partem. Outros querem estabelecer-se aqui em Tijuana”.
Esta realidade apresenta um novo desafio para quem cuida deles, pois são pessoas que “precisam de mais tempo, precisam de alojamento, precisam de comida, precisam de emprego, provavelmente precisam de atenção médica, definitivamente precisam de apoio psicológico”. “Falando do fluxo migratório, bem, diminuiu 90% de sul para norte, mas aumentou de norte para sul com estes indivíduos repatriados”, disse.
Em Tijuana, os serviços do abrigo concentram-se principalmente em homens repatriados, enquanto mulheres e crianças são encaminhadas para o centro Madre Asunta, gerido pelas Irmãs Missionárias de São Carlos (Irmãs Scalabrinianas). Além de alojamento e comida, aqueles que decidem ficar recebem apoio na procura de emprego, regularização do seu estatuto de imigração e integração no mercado de trabalho.
Desafios Futuros
Tanto no norte como no sul do país, o principal desafio continua a ser garantir apoio para as instituições que servem os migrantes. Martínez apontou que “o nosso maior desafio é a sustentabilidade financeira, porque não recebemos qualquer ajuda”. Ele indicou que as organizações da sociedade civil deixaram de receber financiamento governamental há anos e que a ajuda internacional também diminuiu.
Cañaveral concordou que a falta de recursos “é um desafio muito grande para uma Igreja local muito pobre”. Por esta razão, apelou à Igreja Católica em todo o México e às autoridades para não baixarem a guarda, especialmente em tempos como a Quaresma, quando a fé exige caridade. “Queremos responder ao Evangelho: ‘Tive fome e destes-me de comer, era estrangeiro e acolhestes-me'”, disse. “Esta é a obra de Deus, e devemos continuar a dar apoio aos nossos irmãos migrantes.”