Na liturgia de hoje, a Igreja nos convida a refletir sobre a interioridade e a autenticidade da fé, a partir das leituras do Segundo Livro dos Reis e do Evangelho de Mateus.

Primeira Leitura: 2 Reis 2,1.6-14

O relato da ascensão do profeta Elias ao céu em um redemoinho é um dos mais emblemáticos do Antigo Testamento. Elias e seu discípulo Eliseu partem de Guilgal em direção ao Jordão. Ao longo do caminho, Elias tenta dissuadir Eliseu de acompanhá-lo, mas Eliseu persevera: “Pela vida do Senhor e pela tua vida, não te deixarei.”

Chegando ao Jordão, Elias toma o manto, enrola-o e bate nas águas, que se dividem, permitindo-lhes atravessar a pé enxuto. Antes de ser arrebatado, Elias concede a Eliseu um pedido: uma dupla porção do seu espírito. Então, Elias é levado ao céu em um carro de fogo puxado por cavalos de fogo. Eliseu, tomando o manto de Elias, repete o milagre, provando que o espírito do mestre repousava sobre ele.

Evangelho: Mateus 6,1-6.16-18

No Sermão da Montanha, Jesus ensina sobre a prática da justiça — esmola, oração e jejum — com um coração reto, não para ser visto pelos outros, mas para agradar a Deus Pai. Ele alerta contra a hipocrisia dos que ostentam sua piedade: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus.”

Jesus instrui: “Quando tu orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa.” O mesmo princípio vale para a esmola e o jejum: a virtude deve ser praticada em segredo, na presença de Deus, que vê no oculto e recompensa.

Reflexão: O Chamado à Interioridade

A palavra de hoje ecoa o ensinamento do Papa Leão XIV, que em seu discurso aos eremitas italianos (11 de outubro de 2025) destacou: “O Senhor nos chama a entrar neste lugar escondido do coração, escavando-o pacientemente: convida a realizar uma imersão interior que requer um caminho de esvaziamento e de despojamento de si mesmo. Uma vez dentro, pede para fechar a porta aos maus pensamentos para guardar um coração puro, humilde e manso, com a vigilância e o combate espiritual.”

Em um mundo saturado de exterioridade midiática e tecnológica, a interioridade torna-se uma necessidade urgente. A oração silenciosa e oculta não é uma fuga do mundo, mas a fonte de um agir criativo e fecundo na caridade. Da íntima amizade com o Senhor renascem a alegria de viver, o estupor da fé e o gosto da comunhão eclesial.

Que, como Eliseu, possamos pedir a dupla porção do Espírito, e, como Jesus nos ensina, que nossa prática religiosa seja autêntica, voltada para o Pai que vê no segredo.