Na véspera da sua sagração como bispo de Chiclayo, no Peru, o Papa Leão XIV procurou um refúgio de silêncio e oração. Em vez da catedral principal, viajou 30 milhas até à poeirenta cidade de Zaña. O seu objetivo era claro: passar a noite em vigília diante de uma relíquia de São Turíbio de Mogrovejo, o arcebispo do século XVI venerado como o “Apóstolo do Peru”.
O futuro Papa pediu até umas roupas de dormir emprestadas para poder permanecer em oração a noite toda na pequena capela da paróquia local, que guarda um grande fragmento da perna do santo. “Ele estava tão feliz com isso”, recorda o Padre David Farfán, amigo do Papa e atual pároco. No dia seguinte, assumia oficialmente o cargo episcopal.
Um Caminho Partilhado
A devoção do Papa Leão por São Turíbio não é um acaso. Ambos partilham uma história missionária semelhante. Tal como o Papa, Turíbio chegou ao Peru como missionário estrangeiro. Nascido em Espanha em 1538, era um leigo especialista em direito canónico quando foi nomeado Arcebispo de Lima em 1579.
Durante os seus 26 anos de ministério, São Turíbio distinguiu-se pelo seu amor profundo pelos povos indígenas. Traduziu o catecismo para línguas nativas como o quéchua, fundou o primeiro seminário do Novo Mundo e protegeu os direitos dos peruanos nativos. Percorreu a pé a sua vasta arquidiocese, que abrangia cerca de 180.000 milhas quadradas.
O Padre Farfán vê paralelos claros entre o santo e a forma como o Papa Leão liderou a diocese de Chiclayo: “Ambos eram estrangeiros… A abordagem não é impor, mas compreender, ouvir e ter uma mente aberta para que as pessoas possam expressar o que sentem”. A espiritualidade mariana, o foco na comunidade e a atenção aos problemas sociais são outros traços comuns.

Zaña: O Coração da Missão
Zaña não é apenas o local da relíquia; foi um centro pivotal no ministério de São Turíbio. Foi ali que o santo faleceu em 1606. Na sua época, Zaña, conhecida como a “Sevilha do Peru”, chegou a ter 18.000 habitantes e atraiu 14 ordens religiosas diferentes. Uma série de desastres naturais e ataques de piratas reduziram grande parte da cidade a ruínas.
Durante os seus quase 10 anos como bispo, o Papa Leão regressou frequentemente a Zaña, especialmente para celebrar a festa da trasladação do corpo do santo, a 27 de abril.
Uma Peregrinação Futura?
Com a expectativa de uma visita do Papa ao Peru em 2026, há esperança de que ele faça uma nova peregrinação a Zaña. O governo regional já começou a planear um centro de visitantes no local do túmulo original de São Turíbio, preparando-se para um possível evento papal e para fomentar o turismo religioso.
Para os locais, uma visita seria um marco significativo. “Traria um desenvolvimento importante”, afirma o historiador Alfredo Pérez Samamé. “O turismo aumentaria muito devido à importância religiosa da cidade.”
Se o Papa Leão regressar, é provável que se detenha novamente na pequena capela para rezar diante do seu “velho amigo”, São Turíbio – um santo local que os peruanos acreditam continuar a inspirar o seu antigo bispo, agora Papa em Roma.
“Ele já está a seguir os seus passos”, diz o Padre Farfán. “E eu acredito e rezo a Turíbio para que lhe mostre o que precisa de fazer mais pela nossa Igreja. Porque ainda temos um longo, longo caminho a percorrer para continuar a oferecer Jesus Cristo às pessoas.”