Os bispos da Venezuela procuraram transmitir “uma mensagem de esperança” aos seus concidadãos, num contexto de “ansiedades e medos” gerados pela situação do país. Esta mensagem surge na sequência da operação militar norte-americana que levou à captura do presidente Nicolás Maduro e da sua mulher, Cilia Flores, a 3 de janeiro.

Através de uma nova exortação apostólica, intitulada “A vossa luz romperá como a aurora” (Is 58,8), os bispos resumiram as reflexões da sua 125.ª assembleia plenária ordinária, realizada de 4 a 9 de fevereiro em Caracas.

No documento, os prelados citaram o Papa Leão XIV, que na oração do Angelus de 4 de janeiro afirmou que “o bem do amado povo venezuelano deve prevalecer sobre qualquer outra consideração e levar a superar a violência e a embarcar em caminhos de justiça e paz”.

Solidariedade com presos políticos e suas famílias

Os bispos venezuelanos enfatizaram que o país viveu, nos últimos anos, uma profunda crise económica, social e política, dentro da qual “as violações dos direitos humanos e civis, incluindo a liberdade de expressão e o direito ao devido processo e defesa”, se tornaram particularmente proeminentes.

A este respeito, reafirmaram “a sua proximidade e solidariedade” com os mais de 600 presos políticos atualmente detidos na Venezuela e com as suas famílias. Os bispos descreveram as centenas de libertações que ocorreram desde 3 de janeiro como “um sinal positivo” e apelaram à libertação total daqueles que ainda estão detidos ou que foram libertados da prisão com restrições.

“Estamos a acompanhar com interesse a proposta e o processo de aprovação de uma lei de amnistia geral, que deve necessariamente ser ampla e inclusiva, fruto de uma ampla consulta a todos os setores da sociedade civil. Seria um passo importante para embarcar no longo e difícil caminho da reconciliação nacional e da restauração da convivência social e democrática”, afirmaram os bispos.

Além disso, juntaram-se às exigências de vários setores da sociedade venezuelana para a revogação de leis “que restringem direitos fundamentais consagrados na constituição nacional e em convenções internacionais”, especialmente as relacionadas com a liberdade de expressão.

Garantir a soberania nacional

Mais uma vez, os bispos reiteraram que a soberania popular, expressa nos resultados das eleições presidenciais de 28 de julho de 2024, foi desconsiderada pelo regime socialista.

Após as eleições, a organização da campanha de Edmundo González, que concorreu contra Maduro à presidência, afirmou que tinha mais de 70% das atas de voto das assembleias de voto que provavam que González venceu por uma ampla margem. No entanto, o Conselho Nacional Eleitoral, controlado pelo governo socialista entrincheirado de Maduro, declarou Maduro vencedor com 51% dos votos.

As consequências disto culminaram na captura de Maduro por forças norte-americanas sob acusações de tráfico de droga, o que, embora alguns tenham interpretado como uma violação do direito internacional, outros acreditam que abre “caminhos para alcançar a democratização do país”, afirmaram os prelados.

“Durante vários anos, a Venezuela sofreu interferências indevidas de fatores externos que afetaram gravemente a sua soberania”, disseram, apelando aos atores estatais para que tomem as ações necessárias para “garantir a soberania e a autodeterminação sobre o nosso destino”.

Construir o futuro com especial atenção aos mais pobres

Para construir um futuro de justiça e paz, os bispos disseram ser necessário alcançar uma reconciliação nacional na qual os cidadãos se possam identificar “como um só povo, tornando-o novamente um lugar de oportunidades para o progresso e a felicidade, especialmente para os mais pobres”.

“Devemos fortalecer a família como o lugar primário para o desenvolvimento integral dos indivíduos e da sociedade, e superar as barreiras que nos impedem de construir a realidade do ‘nós’ como nação com a participação e inclusão de todos os setores do país”, afirmaram.

“É necessário promover espaços de diálogo que conduzam a um amplo acordo nacional sobre o futuro que queremos construir”, notaram.

Um aspeto fundamental para alcançar esta tarefa, disseram os prelados, é superar o “empobrecimento que atualmente aflige a maioria da população” e que tem sido uma das principais causas do êxodo de milhões de venezuelanos.

Para ajudar a alcançar este objetivo, recordaram o compromisso da Igreja Católica, nas suas várias formas, de ser uma entidade que promove “o encontro, a escuta e o acompanhamento” e que produz “sinais claros e credíveis de fraternidade e reconciliação”.

“Convidamos todos a encontrar na oração diária luz e força para enfrentar com determinação a situação que vivemos hoje”, afirmaram, pedindo aos venezuelanos que intensifiquem os seus atos de piedade durante a Quaresma.