Num contexto de profunda incerteza política e violência generalizada de gangues, um missionário camiliano no Haiti afirma que as próximas eleições no país representam uma frágil esperança de renovação, embora o caminho até lá permaneça “muito vago e incerto”.

O Padre Massimo Miraglio, pároco de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro na remota aldeia de Pourcine Pic Makaya, disse à agência de notícias do Vaticano, Fides, que apesar do caos, uma comunidade de fé resiliente continua a colocar o Senhor no centro da sua vida e luta por um futuro mais digno.

As últimas eleições presidenciais no Haiti realizaram-se em 2016 e foram profundamente controversas, com alegações generalizadas de fraude e uma participação eleitoral extremamente baixa. O empresário Jovenel Moïse foi declarado vencedor e assumiu o cargo em fevereiro de 2017, servindo até ao seu assassinato em julho de 2021.

Desde então, o Haiti mergulhou num caos político e de violência — particularmente na capital, Porto Príncipe, onde gangues armadas atuam impunemente e controlam uma grande parte do território.

As eleições previstas para este ano determinarão o novo presidente, preencherão todos os lugares no Senado e na Câmara dos Deputados, e elegerão todos os funcionários locais e municipais.

“O ano de 2026 poderá ser um ponto de viragem para o Haiti, com eleições planeadas… e a inauguração do novo presidente e do Parlamento em fevereiro de 2027. Mas tudo ainda é muito vago e muito, muito incerto”, afirmou Miraglio.

No final de fevereiro, o Bispo Pierre-André Dumas, vice-presidente da Conferência Episcopal do Haiti, declarou que estas eleições não seriam nem “transparentes” nem “democráticas” devido aos problemas económicos e políticos que a nação caribenha enfrenta.

Miraglio partilha desta visão, observando que a situação económica do país é “terrível”, uma vez que a inflação e o custo de vida são “extremamente altos”. A cadeia de abastecimento do país enfrenta desafios severos devido às rotas “complicadas” e “árduas” envolvidas no transporte de mercadorias.

“Tudo o que chega tem um custo chocante num país paralisado, onde não há empregos e onde as pessoas lutam diariamente para reunir o mínimo necessário. As pessoas vivem dia a dia, e a esperança está a desvanecer-se gradualmente, uma vez que não se vislumbram mudanças significativas para travar esta terrível queda em que o país mergulhou”, afirmou.

“Existe um vazio institucional assustador que levou a esta situação”, continuou, “um desenvolvimento verdadeiramente trágico em que milhões de pessoas sofrem e são forçadas a viver nas sombras, com total medo, porque as gangues continuam a controlar a capital”.

No entanto, o sacerdote destacou a importância das celebrações religiosas para elevar o ânimo da sua comunidade e promover a comunhão: “Estes são momentos em que partilhamos o que é mais importante: a fé em Deus, um Deus generoso que nos ama e nos dá esperança e força para enfrentar os desafios da vida”, disse.

“O objetivo é criar uma comunidade cristã cheia do Espírito Santo, uma comunidade que se esforce por viver os valores do Evangelho diariamente; uma comunidade que coloque o Senhor no centro da sua vida e procure uma vida digna em que todos tenham o necessário para o seu próprio bem-estar”, afirmou o missionário.