Com o início da Quaresma na Quarta-feira de Cinzas, o Padre Manuel Corral, cónego da catedral metropolitana da Cidade do México, apelou a todos os envolvidos em violência criminal para viverem este tempo litúrgico como uma oportunidade genuína de conversão interior.

Durante uma conferência de imprensa, o sacerdote explicou que a Quaresma é um período de 40 dias de preparação para a Páscoa na Igreja Católica, que começa na Quarta-feira de Cinzas e termina antes da Quinta-feira Santa.

Enfatizou que este é um período privilegiado para uma transformação profunda de atitudes, sendo um momento oportuno para “estar disposto a mudar”.

Lembrou também que, embora muitos cristãos gostem de usar visivelmente a cruz de cinzas na testa, o seu significado essencial não deve ser perdido, pois “é um símbolo de arrependimento” que nos convida a examinar as nossas vidas e a voltar os nossos corações para Deus.

Neste contexto, fez um apelo explícito àqueles que perpetram violência no país. Reconheceu que esta exortação é particularmente complexa em relação aos envolvidos no crime organizado, pois os cartéis, disse ele, “estão numa espiral de violência tão grande que fazer um apelo” pelo fim da violência durante a Semana Santa “é muito difícil”.

No entanto, afirmou que “a oração, como recolhimento, pode trazer-nos paz, desde que haja diálogo e esse encontro com Cristo”.

Como exemplo, recordou quando, em 2011, a relíquia de São João Paulo II estava a ser levada de um lugar para outro, tanto em San Fernando, no estado de Tamaulipas, como em Apatzingán, no estado de Michoacán. Em ambos os casos, explicou, foi possível criar um período de calma em contextos marcados pela violência.

Numa entrevista, o cónego da catedral observou que, embora não seja comum, há criminosos que se aproximam da Igreja em busca de reconciliação. Reconheceu que este processo não é fácil, pois receber o perdão sacramental requer assumir responsabilidades, porque “é preciso arrepender-se”, e por vezes isso significa “ir entregar-se às autoridades”.

“Não é fácil”, admitiu, “mas digo-lhe que tem havido [casos]… Posso atestar que há pessoas que mudaram”.

Para além da violência armada, Corral sublinhou que o apelo à conversão também é pessoal e diário. A este respeito, exortou os fiéis a examinarem as atitudes que criam conflito na vida quotidiana, lembrando que cada um deve “fazer o que tem a fazer dentro de si para promover e criar um ambiente pacífico”.

Apelou também para o reconhecimento de comportamentos que prejudicam os outros, como “egoísmo, falta de cooperação ou irritação dos outros”.

Iniciar a Quaresma reconciliado

Para iniciar a Quaresma reconciliado com Cristo, o sacerdote salientou que o mais importante é aproximar-se do sacramento da confissão.

Como sinal de esperança, Corral partilhou que, durante a abertura da Porta do Jubileu da Esperança na catedral metropolitana, testemunhou longos dias de confissões em que milhares de pessoas vieram “movidas por um desejo real de mudança”.

“A confissão é como um cheque em branco que o Senhor nos dá, e nós preenchemos com o que quisermos, mas tendo esta [disposição], para dizer: Senhor, aqui estou, e quero ter atitudes diferentes, dá-me a força para que a minha vida seja transformada, para que a minha vida seja mudada”, disse.

Juntamente com a confissão, o sacerdote lembrou a todos que a Quaresma é vivida concretamente através do jejum, da oração e da caridade.

Esclareceu que o jejum não é uma privação sem sentido, mas sim “significa autodisciplina”; que a oração não é simplesmente repetir fórmulas, mas envolve “acima de tudo, o silêncio… ou seja, ‘fala, Senhor, que o teu servo escuta'”.

Enfatizou também que a caridade vai além de dar esmolas, pois envolve viver com genuína generosidade, uma vez que “ser caridoso é ser generoso, mas generoso em dar o melhor de mim, sim, assumindo a responsabilidade pela minha vida; isso é carregar a cruz, como eu dizia, é isso que significa ser caridoso”.