A Guerra Cristera, um conflito que marcou profundamente o México no início do século XX, continua a lançar uma longa sombra sobre a liberdade religiosa no país. Este levantamento popular católico, uma resposta à perseguição religiosa institucionalizada, foi durante décadas um tema silenciado pela política oficial, criando um vazio histórico que ainda hoje ressoa.
O filme “For Greater Glory” (“Cristiada” em espanhol), lançado há mais de uma década, trouxe este capítulo à luz do grande público. Acompanhando o filme, um livro oficial aprofundou a narrativa histórica. Disponível em espanhol e inglês, a obra é de Rubén Quezada, um católico de origem mexicana, e conta com prefácio do arcebispo de Los Angeles, José Gomez.
Embora o filme retrate um evento histórico que completa um século, o sentimento anticatólico que o motivou “ainda persiste, de certa forma”, no México atual, conforme relatou Quezada em entrevista à ACI Prensa. O autor, hoje um palestrante internacional, recorda que na sua infância no México, a Guerra Cristera estava ausente dos currículos escolares.

Este silêncio generalizado foi consequência de uma política de Estado. Após os “arranjos” de 1929 entre a Igreja e o governo, que puseram fim formal à guerra, houve “uma ordem governamental de que nada podia ser publicado, nada podia ser divulgado”, tornando o tema um tabu. Muitos católicos evitavam falar do assunto por medo de represálias, privando gerações do conhecimento sobre a perseguição religiosa.
Foi apenas através da obra do historiador Jean Meyer, “La Cristiada”, que Quezada aprofundou o seu estudo sobre a guerra. Este silêncio forçado perdurou até 1992, com a restauração oficial das relações entre a Igreja Católica e o Estado mexicano, após uma ruptura diplomática de 60 anos.
Este espírito de silêncio manifestou-se até durante a produção do filme estrelado por Andy García. Quezada notou que “muitos governadores ou presidentes municipais não permitiam que o filme fosse rodado” nas suas localidades e que, após o lançamento, houve boicotes subtis, com relatos de cinemas que se recusavam a exibir o filme ou que alegavam esgotamento quando as salas estavam vazias.
Atualmente, embora a perseguição não esteja no mesmo nível, as suas raízes “permanecem nas plataformas governamentais”, segundo Quezada. Paralelamente, existe um “silêncio profundo” na sociedade mexicana contemporânea sobre a Guerra Cristera. O autor, nas suas viagens pelo México, encontra muitas pessoas que “preferem não falar sobre esse assunto, ou não o conhecem, ou simplesmente não se importam”.
Perante este cenário, Quezada defende que a resposta católica deve passar por uma participação ativa e informada na vida pública. “Temos a responsabilidade de votar com uma consciência católica”, sublinha, argumentando que os líderes não devem ser eleitos “simplesmente por preferência pessoal ou tradição familiar”.
Para o autor, a liberdade religiosa depende da capacidade dos leigos em colocar em cargos de autoridade aqueles que respeitam a fé e a dignidade humana. “Devemos examinar cuidadosamente cada candidato… sabendo que estamos a escolher o que é melhor para a humanidade, para a sociedade, para o mundo”, acrescenta.
Finalmente, Quezada lança um desafio que liga o sacrifício dos Cristeros à adesão cristã contemporânea. Após anos a estudar figuras como o Beato Miguel Agustín Pro, o autor coloca uma questão crucial, 100 anos após a Guerra Cristera: “Estaríamos dispostos hoje a levantar-nos com aquela fé, com aquele coração que ardia pela paixão de Cristo? Estaríamos dispostos a agir dessa forma se alguma vez nos confrontássemos com algo semelhante?”
Esta história foi publicada originalmente pela ACI Prensa, serviço em língua espanhola da EWTN News, e adaptada para português.