A Guerra Cristera no México, também conhecida como “Cristiada”, não foi apenas um conflito armado, mas um embate direto entre um Estado que buscava a secularização forçada e uma sociedade que se recusava a renunciar à sua identidade católica. Este episódio sangrento deixou um legado de mártires e uma ferida histórica que marcou a complexa relação entre Igreja e Estado no México moderno.
Contexto: A constituição de 1917
O conflito não surgiu do nada. Suas raízes estão na Constituição Mexicana de 1917, que incorporou artigos anticlericais destinados a submeter a Igreja ao controle absoluto do Estado.
O Artigo 3º proibia as corporações religiosas e os ministros de culto de dirigirem escolas primárias. O Artigo 5º bania o estabelecimento de ordens monásticas e a profissão de votos religiosos. O Artigo 24 limitava o culto público ao interior dos templos, sempre sob vigilância do governo. O Artigo 27 retirava das igrejas a capacidade legal de possuir bens, transferindo-os para a nação. O Artigo 130 negava personalidade jurídica às igrejas, impedia os ministros de culto de participarem da política e dava poder aos estados para limitarem o número de sacerdotes. Essas disposições formaram a base legal para a perseguição anticlerical que culminou na “Lei Calles”, que intensificou as restrições e desencadeou a Guerra Cristera.
Em 1926, o presidente Plutarco Elías Calles agravou a situação com a “Lei sobre Crimes e Delitos Relacionados ao Culto Religioso e Disciplina Externa”, também conhecida como “Lei de Tolerância Religiosa” ou simplesmente “Lei Calles”, que alterou o código penal estabelecendo penas severas.
Entre suas restrições mais duras, a nova lei proibia os sacerdotes de usarem batina ou qualquer outro símbolo religioso fora das igrejas, sujeitando os infratores a multas e prisão. Sacerdotes não nascidos no México enfrentavam multas e deportação. O estabelecimento de ordens monásticas ou conventos foi banido, e os conventos existentes foram dissolvidos. Além disso, os ministros de culto eram proibidos de criticar as leis fundamentais do país, as autoridades em particular ou o governo em geral.
A resposta da Igreja Católica foi drástica, inédita e disciplinada entre todos os arcebispos e bispos mexicanos: Em 31 de julho de 1926 — com a Santa Sé rejeitando a “Lei Calles” e “qualquer ato que pudesse significar ou ser interpretado pelos fiéis como uma aceitação da própria lei” — o culto público foi suspenso em todo o México.
O estopim
“É de fato a suspensão dos serviços religiosos que pode marcar o início da Guerra Cristera”, afirma o historiador franco-mexicano Jean Meyer nas páginas iniciais do primeiro volume de sua obra “La Cristiada”.
Meyer cita uma carta de alguns cristeros ao seu pároco, que havia sido preso pelas autoridades e os instava a se renderem: “Sem sua permissão ou comando, nos lançamos a esta bendita luta por nossa liberdade, e sem sua permissão ou comando, continuaremos até vencer ou morrer.”
Assim, em diferentes partes do país, fiéis católicos se levantaram espontaneamente em armas.
A disposição para a resistência armada contra o governo não foi unânime. “Os bispos sem dúvida pregavam a resistência”, observa Meyer, mas ao mesmo tempo, “especificavam que não queriam outra resistência senão a passiva e pacífica.”
Embora muitos prelados tenham dado apoio pastoral aos cristeros de alguma forma, “os inimigos da ação armada eram mais numerosos”, ele aponta.
A situação também não era uniforme entre os sacerdotes. Uma lista compilada pelo historiador franco-mexicano indica que 100 “sacerdotes eram ativamente hostis aos cristeros”, enquanto 40 eram “ativamente favoráveis aos cristeros”. Cinco sacerdotes são registrados como “combatentes”, enquanto 65 eram considerados “neutros”.
O número de sacerdotes “que abandonaram paróquias rurais e sacerdotes das cidades” totalizou 3.500, enquanto os sacerdotes “executados pelo governo” foram 90.
Foi “o povo, ‘o índio'”, quem reagiu, diz o historiador, e o fizeram “violentamente” porque “a Igreja era mais do que um edifício de pedras empilhadas, e o sentimento popular havia sido ferido em seu âmago, já que o profano e o sagrado estão inextricavelmente entrelaçados.”
“O povo, a grande maioria ou muitos camponeses — que foram os que lutaram a guerra de guerrilha com mais ferocidade nos estados de Jalisco, Guanajuato, Michoacán, Colima e outros estados centrais — não tinham muita teologia… nem faziam muitas distinções entre as coisas, mas sim era algo, digamos, do coração e do sentimento religioso…, de amor por sua fé”, que os motivava, disse à ACI Prensa o administrador apostólico da Diocese de Cancún-Chetumal, Dom Pedro Pablo Elizondo Cárdenas.
Algumas figuras-chave
É difícil compilar uma lista específica das figuras-chave e daqueles que perderam a vida nas mãos das tropas federais anticlericais, especialmente considerando que a Conferência do Episcopado Mexicano estima que houve “mais de 200.000 mártires que deram suas vidas defendendo sua fé.”
Mas para entender a magnitude da Guerra Cristera, é necessário identificar alguns dos atores que lideraram o movimento, bem como as figuras que personificaram a resistência espiritual contra a perseguição federal.
A resistência cristera foi coordenada pela Liga Nacional para a Defesa da Liberdade Religiosa — conhecida como “A Liga” — que, embora tenha conseguido 2 milhões de assinaturas na tentativa de reformar a Constituição de 1917 (esforço que acabou falhando) e organizado um boicote relativamente bem-sucedido, lançou-se no esforço de guerra sem estar “preparada para enfrentar a situação”, segundo Meyer.
O Beato Anacleto González Flores, conhecido como “Mestre Cleto” e também apelidado de “Sócrates de Guadalajara” em referência à sua origem no estado de Jalisco, era um leigo que liderou esforços pacíficos para enfrentar a perseguição do governo e foi martirizado em 1º de abril de 1927. Ele é o padroeiro do laicato mexicano.
**São José Sánchez del Río**, carinhosamente chamado de Joselito, foi martirizado aos 14 anos. Ele se alistou na guerra assegurando à sua mãe que “nunca tinha sido tão fácil ganhar o céu como agora, e não quero perder a oportunidade”. Foi capturado, torturado e morto. Antes de morrer, pediu que esta mensagem fosse entregue a seus pais: “**Viva Cristo Rei**, e nos veremos no céu.”
A fotografia da execução do **Beato Padre Miguel Agustín Pro** em 23 de novembro de 1927 mostra o sacerdote jesuíta com os braços abertos em forma de cruz diante do pelotão de fuzilamento. É um dos símbolos mais poderosos da brutal perseguição religiosa sofrida pelos católicos durante a primeira metade do século XX.
Entre os assassinados por ódio à fé durante a perseguição religiosa desencadeada pelo governo federal, destacam-se seis sacerdotes que eram membros dos Cavaleiros de Colombo. Esta fraternidade teve um papel de liderança, tanto econômica quanto socialmente, no apoio à liberdade religiosa durante aquele trágico período no México, até o ponto de oferecer suas próprias vidas.
Os seis sacerdotes, canonizados pelo Papa **São João Paulo II** em 2000, são: Luis Bátis Sáinz, José María Robles Hurtado, Mateo Correa Magallanes, Miguel de la Mora de la Mora, Rodrigo Aguilar Alemán e Pedro de Jesús Maldonado Lucero. Todos foram canonizados em 21 de maio de 2000, junto com outros 19 mártires mexicanos, incluindo São Cristóbal Magallanes.
‘Acordos’ de 1929 e o fim das hostilidades?
Oficialmente, a Guerra Cristera terminou em 21 de junho de 1929, com os chamados “Acordos” entre o arcebispo mexicano Leopoldo Ruiz y Flores, como delegado apostólico do Papa **Pio XI**; o bispo de Tabasco, Pascual Díaz; e o então presidente do país, Emilio Portes Gil, sucessor de Plutarco Elías Calles.
No entanto, os “Acordos” não implicaram em mudanças na Constituição de 1917 ou na “Lei Calles”, mas sim estabeleceram um “modus vivendi” no qual o governo federal se comprometia a não aplicar as leis para perseguir católicos, enquanto os bispos retomavam os serviços religiosos e os cristeros depunham as armas.
Mas a perseguição estava longe de terminar. Meyer escreve que “para os cristeros, o ‘modus vivendi’ rapidamente se tornou um sinistro ‘modus moriendi’ (um modo de morrer), sofrido como uma prova pior do que a guerra em si e suportado como uma cruz, um mistério incompreensível que eles enfrentaram por amor ao papa e a **Jesus Cristo Rei**.”
Meyer observa que “todos os ex-cristeros dizem: ‘Mais pessoas morreram depois dos ‘Acordos’ do que durante a guerra.'”
“Na capital da república, a linha do partido era assegurar e repetir que tudo havia acabado, mas nos registros do Ministério da Guerra, há relatos de campanhas até 1941 e os generais discutindo os meios de subjugar os rebeldes, que às vezes eram muito perigosos, aqui e ali”, escreve Meyer em outra parte do primeiro volume de “La Cristiada”.
Este período é comumente considerado a “Segunda Guerra Cristera”, mas Meyer aponta que “se a primeira etapa (1926-29) da Guerra Cristera já era uma guerra [travada pelos] pobres, a segunda foi uma guerra dos destituídos, sem recursos, sem apoio.”
Longo caminho para a liberdade religiosa no México
Só em 1992 — após duas visitas do Papa **São João Paulo II** ao México, em 1979 e 1990 — as relações entre Igreja e Estado seriam formalmente reestabelecidas no país com uma Constituição de 1917 reformada e a nova e atual “Lei sobre Associações Religiosas e Culto Público”, que permite o reconhecimento da personalidade jurídica da Igreja Católica.
Apenas desde 1992 a Igreja Católica tem permissão para ser proprietária de templos no México, mas todos os construídos antes desse ano — incluindo a **Basílica de Guadalupe** (concluída em 1976) — são propriedade da nação.
No entanto, a lei atual ainda proíbe tanto as associações religiosas quanto os ministros de culto de possuírem ou administrarem “estações de rádio ou televisão ou qualquer tipo de telecomunicação”, bem como “administrar qualquer um dos meios de comunicação de massa”. Na verdade, a lei permite apenas a publicação de “materiais impressos de caráter religioso”.
Um chamado dos bispos mexicanos no centenário
Em sua mensagem mais recente aos fiéis, os bispos mexicanos pediram “honrar a memória” da “resistência cristera”.
Eles advertiram que este centenário “não pode ser uma mera comemoração nostálgica. Deve ser um exame de consciência e um compromisso renovado.”
“Nossos mártires nos perguntam hoje: Estamos dispostos a defender nossa fé com o mesmo compromisso radical? Perdemos o sentido do sagrado? Nos acomodamos em uma cultura que quer relegar a fé à esfera privada?”
Esta reportagem foi publicada originalmente pela ACI Prensa, o serviço de notícias em espanhol da EWTN. Foi traduzida e adaptada pela equipe da EWTN Notícias.