A atuação de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl LX gerou reações contraditórias. Para uns, foi um triunfo hispânico sem nada de objetável. Para outros, um espetáculo vulgar que não representou o melhor da América Latina.
Em entrevista à EWTN News, o padre Mario Arroyo, doutor em Filosofia, observou que o evento serviu de palco para uma “mensagem política”, na qual Bad Bunny afirmou “que os Estados Unidos são uma nação multicultural” com cerca de 70 milhões de latinos. “É também uma mensagem política que confronta a agenda do ex-presidente Donald Trump”, acrescentou.
O sacerdote considerou o show uma expressão da “comunidade latina nos EUA que se sentiu acossada pelas medidas da administração” anterior, que desencadearam protestos contra as rusgas violentas da Imigração e Controlo Alfandegário (ICE).
“Não foi o ‘melhor ato’ da América Latina”
Arroyo lamentou que o espetáculo não tenha sido o “melhor ato” da América Latina, mas sim um “espetáculo vulgar sem nada de edificante”. Salientou que “há um princípio moral que diz que o fim não justifica os meios”, mesmo que a intenção de Bad Bunny fosse “transmitir uma mensagem positiva”, destacando várias imagens de Porto Rico e da América Latina.
O Super Bowl LX foi o segundo mais visto da história. O espetáculo do intervalo, com média de 128,2 milhões de espectadores, contou também com Lady Gaga e Ricky Martin.
Presidente da Conferência Episcopal Portorriquenha opina
D. Eusébio Ramos, bispo de Caguas e presidente da Conferência Episcopal Portorriquenha, também se pronunciou. “Ouvir a voz de um jovem que prioriza uma linguagem de amor enche-nos de alegria”, afirmou à agência italiana SIR.
“As palavras de Benito tocaram corações, lembraram-nos valores cristãos, como a fraternidade e a primazia do amor”, acrescentou o prelado, referindo-se ao nome verdadeiro do artista, Benito Antonio Martínez Ocasio.
Ramos destacou que Bad Bunny “é, sem dúvida, uma voz que nos lembra o valor da dignidade de cada ser humano”. Sobre a relação de Porto Rico com os EUA, comentou: “Há 125 anos que sofremos, na prática, o colonialismo. É uma relação injusta, manchada pelo pecado. Mas Porto Rico sobreviveu, manteve viva a sua identidade e cultura”.
“Nem todo o sucesso tem valor”, diz senadora portorriquenha
A senadora independente e pró-vida portorriquenha, Joanne Rodríguez-Veve, também comentou a atuação do seu compatriota. “Acredito que Bad Bunny não é um fenómeno musical, mas um fenómeno político dentro da cultura. A sua mensagem, com claros tons ‘woke’, tornou-o um ícone da esquerda cultural”, disse à ACI Prensa.
“Ironicamente, Bad Bunny, o filho favorito do capitalismo, é o novo ídolo da esquerda política. Acontece que, quando lhes convém, o sucesso capitalista é bom”, afirmou.
Rodríguez-Veve reconheceu os feitos do artista, mas esclareceu: “Cairíamos short na nossa capacidade de reflexão se o valor de algo ou alguém fosse medido apenas pelo sucesso. Sucesso em dizer o quê? Sucesso em promover o quê? Não, nem todo o sucesso tem valor. Esse é o ponto”.
“Como mulher portorriquenha, não me sinto representada por quem objetifica as mulheres e nos retrata ao mundo como animais num bacanal”, enfatizou.
“A comida de plástico não é o melhor para a alma”
O padre Arroyo chamou ainda a atenção para o contraste entre o espetáculo de Bad Bunny e a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, com Andrea Bocelli e Laura Pausini: “Foi um espetáculo de grande qualidade humana e cultural… e, claro, um nível artístico infinitamente superior à música de Bad Bunny”.
Lamentou que muito mais pessoas tenham visto o Super Bowl, sugerindo que parece preferir alimentar a alma com “comida de plástico”. Encorajou a ensinar as crianças “a serem criteriosas” sobre o que veem e a “avaliar criticamente o que lhes comunicam”.